terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Vagante


O amor tocou no peito do pobre rapaz,
Enlouqueceu a engenhosa menina da esquina,
Prendeu o pai, matou a mãe, chocou os irmãos.

O amor destruiu o beijo perfeito do casal do número 20,
Corrompeu a intuição da tia de Maria,
Encerrou os sonhos de José.

Desfez, ainda, o aberto sorriso da senhora dos óculos vermelhos,
Queixou-se do modo de andar e do vestido da mulata,
Destruiu a castelo de cartas da esposa de Cândida.

O amor passou pela pacata Rua da Alegria,
Permitiu-se entrar em cada vão de cada casa,
Mexer em cada ansioso coração que ali vivia.

O amor entristeceu e mudou os felizes daquele lugar.

O amor entrou ainda no quarto de João,
Entrou na cozinha de Hortência,
Mudou os dois, que já eram tristes.

O amor os fez se conhecerem, abraçarem, beijarem.
Os fez também casarem e saírem da Rua da Alegria.

O amor - este também saiu da Rua da Alegria -
Perambulou pelo mundo, entrou em outras casas.

Veio a mim.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Óptica




E numa dessas encruzilhadas quaisquer,
Topou meu olhar no teu.

Olhou, desacreditou e tornou a olhar,

Olhou tanto que, então, tornei-me teu olhar também.
Encruzilhei-me, então, numa bela vista constante.

Tamanha paisagem perfeita,
Gravei na retina como se tatuagem de cor fosse;
E do olhar negro de outrora, 
Tornei-me hoje olhar de céu em aquarela;

Alternado prisma, ainda que em mínimo pestanejo.

Topou, também, teu olhar no meu,
E, numa dessas encruzilhadas quaisquer,
Viste meus olhos reluzindo ao te ver.

Viste, ainda que sonolenta,
E os banhaste, então, em satisfeitas lágrimas,
Aquelas mesmas, antes desacreditadas, antes sofridas.
Radiantes, agora.

Eis, como ressonância de olhares, que trocamos a vida,

Vivendo a olhar além de cada um: os dois em um;
Destrancando, destrocando, encruzilhando-nos um pouco mais que antes.

E, numa dessas encruzilhadas quaisquer,
Topou meu olhar no teu, teu olhar no meu.
Toparam, cruzaram.

E não se descruzaram mais.


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Chronos Injusto


Ah, injusto tempo!
Despista-nos tanto quanto nós mesmos!

Dos dias que não te vejo,
Estes que nos fazem menos nós,
Apenas a saudade me confessa medos e dores,
E os dores e medos me confessam mais ainda.

Vens, amada moça!
Torna-te minha cúmplice,
Matemos esta angústia que em mim fez morada!
Choremos, agora, daquela felicidade que constumávamos ter!

Faz-me esquecer o receio que por vezes me paira,
Reensina-me de novo, aquilo que chamei 'Amor',
E me deixa contar a nós como um, apenas.

Vá, injusto tempo!
Corra agora, mas não depois.

Corra, moça!
Venha agora, também depois.

(Antes que nunca ou antes de mim)

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Aromática Dormida


Transpiro o amor em pele tímida
Gotejo em tua dormida.
Vens e me sentes por entre as narinas, os pulmões;
Aspira-me nesse além-mar de sentidos.

Em tua mente, assim, como narcótico.
Adormeço-me em teus, antes, sonhos;
Acordo contigo uma vez mais.

À simplicidade do mais letal aroma,
Entregamos-nos.

Mata-me.
Mata-te.
Morremos, mas não de morte.

Transpiras teu perfume adocicado
E te cheiro e tu me cheiras.
Te peço.
Peco.

Assim sempre, nosso amor:
Doce toque de felicidade em notas de saudade,
Exala-se e se prende à nós mesmos,
Como flor a tocar n'outra; entrelaçar-se.

Eis que guardamos a eternidade em mínimo vidro,
Hoje, agora e sempre,

Nosso.


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Vidro Sujo



Longe, eu me escondo.

Afasto-me de mim mesmo e deste Cruel Mundo vasto,
Este mesmo que me tira tanto e do qual tanto tiro.

Mundo cru, confuso como o que sou,
Como a dança de meus atos;
Vastos de pecados e falhas
Injustos sob meus olhos.

Imaturo em meus sonhos.

Fecho-me nesse casulo de culpa;
E durmo sob o asfixiante pesar dos erros
- Os meus. Os de todos.

E a lágrima que cai, já esquece o rosto,
Molha apenas a alma.
Irriga-a, afoga-a em suas dores passadas.

Eis que assim, resta-me o lamento
- Este pouco sussurro de dignidade.

(Ali, bem perto, o Cruel Mundo se exibe.
Expõem em sujas vitrines sua deprimente vastidão.)

Pobre humanidade, esta.
Olha detrás de suas janelas e ri.

Vidros sujos.
Empoeirados e desgastados pelo tempo.

Sujeira não limpa por água e sabão.

domingo, 20 de maio de 2012

Confusa Natureza ou Desabitar-se



Tocou-me a mão, o medo;
Rasgou-me o peito,
Guardou-o suas névoas e seu pânico.


A luz que se foi, foi-se como relâmpago de tempestade.
Sem despedidas, nem abraços;
Fechou-se no escuro frio da dúvida.


E o choro cruel, este agonizou-me;
Molhou-me o rosto como água de chuva;
Usou-me das mãos como brisa reconfortante.


Cálida dor.
A pálida natureza de quase pós-vida;
Neblinando o céu,
Sibilando, em mim, seu vento mais cortante e perverso.


E o tempo - este relógio de inverso, de inverno.
Corre frio.
Denso.
Confuso.


Ainda não estático, porém.


- E a esperança, verde e vasta árvore sonhadora,
  Custa, mas cresce em ramos simétricos.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Repintura

Retoca, o amante, seu amor;
Pinta de novo o novo coração desbotado,
As velhas flores, o vermelho cintilante.

Redesenha-o com outros traços;
Dá-o brilho nascente.
Equilibra-o à inevitável sombra.

Aperfeiçoa, assim, o tão antes perfeito.

Limpa, em lágrimas, a tinta antiga;
Seca para nunca mais.
Borra o sofrimento;
Apaga um fim.

Amor de peito como tela.
Amado como obra-prima;
Amante como artista;

Faz o céu e nele vive.
Dá as mãos;
Corre ao infinito.

Amante-artista;
Artista-amante.

Repinta o mesmo amor todos os dias.

domingo, 15 de abril de 2012

Versos do Amor Bêbado



Assim, veio o amor:
Trôpego,
Estranho,
Negativo.

Olhou-me,
Riu-me,
Beijou-me, enfim...

E riu-me um tanto mais, como que de praxe.

Quis sair;
Voltar;
Congelar-me a mente em único pensamento;
Girar comigo pelos dias e vida.

Eis que eu, confuso de sempre;
Duvidei-me, então,
Calei-me, então.
Neguei; afirmei; joguei-me contra mim mesmo.

E me perdi...
Perdi-me em ti.
E venci a mim mesmo.

E vencemos.
E amamos.
E cá estamos.

Dormimos.
Acordamos.
Eu aqui; tu aí;
Tu aqui: eu aí.

E, enfim, nós juntos.

Abraços, beijos e gritos de saudade.
Whisky, tequila e algo mais a nos atiçar o sex appeal.

Despedaços


Flor vermelha a secar em solo árido;
Despedaça a si mesma,
E pétalas d'um jovem pobre coração.

Sangra o vermelho púrpura,
Aquele antes belo enfeite de jardim,
Antes símbolo e sentido de vida.

Murcha como sorriso falso em dia triste;
Pisoteada como esperança de amores falhos.

E a felicidade,
Esta de outrora, provisoriamente, omitida;
Brinca de esconder;
De não existir.

Semeia a dor um tanto a mais.
Despedaça a pobre flor,
Esgota, quase, seu perfume.
Seca, morre, desprende-se de mim.

Sangra pétala, amor e dor.

Suspira, então, uma vez;
Insiste em gotículas d'água.

Colore ainda o chão tão antes monocromático, batido,
Abatido.

Vive seu último e mais forte cheiro.

Entrega-se ao vento e à sorte.

domingo, 25 de março de 2012

Desavergonhar



Sou sim, sem-vergonha.


Por não sentir vergonha de dizer que te amo;
Dizer 'eu te amo';
Falar assim, sem rodeios, dúvidas e tantas malícias.

Por saber que 'eu te amo' se fala em silêncio e em barulho,
Por saber que é audível quando se quer;
Também quando não.

Por ser egoísta e só pensar em ti.

Sou sim, sem-vergonha,

Sem-vergonha por não sentir vergonha, medo;
Outros sentimentos retrógrados, também;
Esses que afastam as pessoas, 
Separaram-nas, maculam-nas.

Por apenas sentir à ti, aqui comigo.
E tu me abraças e me beijas, mesmo de longe.

E me vem essa paz multicolor que tu carregas e me jogas;
Perde-se em mim;
Faz-me mais sem-vergonha;
Mais seguro a arriscar-me contigo.

E a gente se entende;
Sente,
Vence.

Vira parte de poesia.

Assim, juntos.
Sem-vergonha.

terça-feira, 20 de março de 2012

Trânsito Lento



Centro de meu peito,
Percurso de alguns poucos,
Preciosos andantes.

Cruzam devagar minhas avenidas,
Clandestinos caminhos de ida e volta;
Devagar, olham para os lados - os meus;
Vêem o amor se pôr ao horizonte.

E a menina de sorriso singelo vem também:
Vence minhas estreitas vias,
Atravessa-me a alma;
Pune meu eu descrente de paixão, apego e calma.

E me respira e me purifica o ar - aquele antes nocivo.

Assim que a dor, os medos, os nãos
Vão e se perdem juntos;
Partem sem volta em faixa única.

Quanto a mim,
Tão somente este trânsito lento;
Curvas antes perigosas;

Hoje, por somente uma,
Desbravado;
 
Conhecido.
Reconhecido.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Outorgado Vazio ou Quase Dor


Saudade,

Esta que te arranca de meu peito,
Joga-te num místico altar de minha mente.
Amarra-te;
Prende-me à ti.

E me sacia e me vicia;
Como fogo que aquece e congela a vida;
Ar desconfiável de tão puro.

Saudade,

Vilã bondosa que te recria;
Mostra em sonhos, a dor sufocante d'uma improvável solidão,
Hoje já inevitável.

E seu nome,
A me surgir, sempre, em paredes antes brancas;
A me surgir nos primeiros cânticos da manhã,
E últimos suspiros da noite.

E lembro-me de ti
A me olhar,
A me beijar,
A me sentir.

E ainda que quisesse cegar-me;
Ainda que prometesse minha alma aos templos eclesiásticos;
Ainda sim, ver-te-ia;
Ainda sim, pecaria.

Ainda sim, sentiria-te tão somente em mim.

Saudade,
Esta que tanto me tem,
Respira meu ar,
Vive meus dias,

E prossigo a te inventar nesse meu absurdo mundo.

terça-feira, 6 de março de 2012

Sol


E foste tudo;
Tudo tanto que ainda foste dia de sol.

Uma tal chama em meio à noite trôpega;
Ardente chama que me aquece no frio da distância,
Esta que evita o meu toque,
Mas que não o teu em mim.

E olhei-te ainda mais,
Encantei-me na luz que é tua.
E sorri, 
[ quente que estava.]

E foste o sol.
Foste teus dias,
Os meus.
Os nascentes, poentes em mim.

Foste um dia de sol,
Dois, três... Milhares.
Aquele mais caloroso e brilhante dos já nascidos em meu peito,
Sol dos dias e da noite,

Raios que me envolvem e me têm.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Dias Em Linhas

Poesia...

Ser poesia é fácil;
Ser versos, rimas,
Virar estrofe,
Descansar e ser outras depois.

Difícil,
Difícil mesmo é ser saudade;
É ser silêncio,
Olhar a vida de longe.

Ser ponto final em lugar de reticências.

Daí o choro, o frio,
Essa vontade de abraçar meu pensamento,
De beijar,
De criar esse mundo perfeito pra gente viver junto.

É que a vida se cria em versos curtos,
Estrofes longas,
Pontos finais desnecessários,
Sonhos, desejos e falta deles.

Assim que a gente se perde.
Eu,
Você,
Todo mundo.

Achamos, depois.
E matamos a saudade e a temos de novo.

Por isso a poesia vem fácil.
Milhares dela.

E somos então só isso.
Reunidos em pensamento alegre e triste.

Sendo versos, linha após linha;
Dia após dia.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Morena Moça Bonita



Moça bonita
Veste-se bem de morena e sorriso;
Bebe um tanto de felicidade.
E me vem.

Vem assim, com dança bagunçada; 
Harmonia hipnotizante.
;
Enrola os cabelos;
Enrola-me a mente;

E diz que a vida é boa.

E boa que é, a moça,
Cega-me e me faz ver melhor;
Ver o mundo em laranja e verde, então,
Tão singelo, calmo, perfeito.

E me vem, assim, de repente:
Uma, duas, três vezes.

Olha-me.
Abraça-me.
Beija-me.

E acordo.

Já saudade, talvez,
E um destino cruel que dá e tira.
 
(E nossos nomes assinados ainda em letras miúdas.)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Negociata



Vende-se, o amor.

Vende-se por não mais querer-me,
E eu a ele.
Desacreditados que somos, mais que antes.

Desvincula-se, livra-me;
E fingimos nos esquecer como de mero brinquedo velho, 
Sem tanta graça; tanta cor. 
Sem importância.

Assim que se vai (ou se quer que vá):
Gasto, vendido, desdenhado,
Como se choro e dores fossem vendidos;
Como se lembranças envelhecessem e partissem.

Corações e cifras que multiplicam-se,
Dividem-se também.

Desvalorizado, falho.
Errado, magoado.
Vai-se. 

Vende-se, o amor;
Dá-se, por vezes, a qualquer um.

Entrega-se em pranto a outro dono.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Ilusão e Flores


E os olhos mentem para a mente
E a mente para os olhos e o coração...

Vem assim, a ilusão:
Flor de papel vista de longe,
Bela, ainda que sem cheiro e vida,
Leva a atenção do mundo.

Quanto ao amor,
Assim também, por vezes.

E os olhos se enganam,
Como a mente e o coração;
E o amor surge e some como chuva em flor de papel.

Ilusão assim,
Sempre tão confusa e pura;
Sempre tão flor real e de papel.

Sempre tão flor de papel real.

E o coração que se engana,
Mente.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Estilhaços



Vejo-te nos espelhos quebrados de meu eu,
Mais profundo eu que conheço.

Obscuro abismo perdido.

Estilhaçada, tu estás,
Como a mim, também, quando amei-te,
Entreguei-me a ti, como frágil vidro.
Quebrei-me, então.

Confusa, reflete-te,
Assim como éramos nós:
Ausentes e presentes em errôneos instantes,
Amor distorcido que era.

E tu em cristal, não mais quero,
Pois quebrado que és,
Dilacera-me a carne e alma.

Marca-me como em tempos passados.

E eis que livrei-me então desse nosso espelho,
Velho espelho inútil
Punha-nos, antes, como quase iguais.

E vejo-te, então, em pedaços,
Migalhas q sem forma trabalham.

E te cubro em tecido.

Jogo-te mais fundo num esquecido eu.

 
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