terça-feira, 29 de março de 2011

Vida Só


Andava, o homem.

Sem rumo
Ou pés sãos,
Em seu inferno particular, lá estava.

Trôpego, simplesmente,
Deixando-se sofrer um pouco mais,
Viver um pouco menos,
Calar seu medo.

E chorava, o homem.

Rosto sujo de dor,
Corpo maltratado pela vida,
E mente entorpecida, quase livre.

A morte, de longe,
Vestida de pobre criança ingênua,
Com a mão estendida, dando-lhe um adeus.

O nada o inspira
Porque o nada quem o teve,
E no nada, ele se perde.

Anda;
Chora;
Vai-se...

Desentendido, aquele homem;
Incompreendido;
Mal visto.

Cansado da vida.
Cansado de tudo.

Sozinho, necessariamente.

sábado, 19 de março de 2011

Infrutuoso


Frutos secos a enfeitar o chão.
Caídos, após a inútil espera;
Mortos, após o frio que tanto lhes foi dado.

Frutos, antes perfeitos aos mais sensíveis olhos
E ao mais fino paladar;
Hoje entregues à depressora putrefação.

Pisados por quem se esperava apreço.
Crescidos, não para estas bocas.

D'uma semente certa num lugar errado,
Eis que nasceram;
E na vã esperança, padecem.

Frutos maduros,
Frutos do desgosto.

Vento e árido solo a desenhar seu túmulo
E suas próprias flores a acompanhá-los.

Pobres frutos,
Desnecessariamente mortos.

Despencam comigo.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Versos em branco ou Incoerência


Poeticamente feliz.

Poeticamente, apenas,
Porque são os versos que me escondem,
E me acalentam, após o escondido pranto.

Vida que pouco amo e pouco choro,
Faz-se sem rimas improváveis,
Ou sem rima alguma,
Reticente, sempre.

Pausas guardando o lamento,
Implícito em palavras isoladas,
Mascarado pela exposição da falsa felicidade.

Fácil falar de amor, de alegria e de tristeza.
Difícil é senti-los,
Carregá-los no peito,
Matá-los.

Versos e vida incoerentes,
Incertos.

Aguardando um ponto final, apenas.
Ou guardando-o para um melhor momento.

E um rabisco surge numa página em branco.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Repetível Regresso


Apenas te olhei,
E a última lágrima escorreu rosto abaixo.

Rio de lembranças que me percorre;
Memórias tristes e felizes se mesclando,
E o alívio e a dor se tornando incompreensíveis.

Segundos de morte ou vida.
Amor que não se entende.

A perfeita imperfeição que tanto nos preenche.

Meus lábios, sedentos pelos teus:
Encontram-se,
Estranham-se,
E se unem uma vez mais.

Nossa incerteza, que nos aproxima e nos separa,
Como a dependência que temos um do outro,
Perpetua-se a cada nascer do sol,
Vai-se a cada emoção intensa e imprevisível.

Injustos que somos,
Até a nós mesmos.

E depois de me negares,
Tu me chegas,
E me afeiçoas.

Secas meu sofrimento
E me tens novamente por inteiro,

Como eu a ti.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Bloco da Solitária Alegria


E, de repende,
A banda ressoa suas marchinhas,
E as pessoas sorriem, livres da sobriedade.

Ao menos em um 'por enquanto'.

Dançam, desritmadas sobre palcos vastos,
E abraços e beijos interrogantes perduram, uma vez mais,
Mesclando bocas antônimas de outrora.

No salão dos bobos,
O espetáculo dos tolos,
A ilusão da falsa alegria.

A mente que nos mente:
Devaneios curando a dor, ainda que efêmeros.

E no Bloco da Solitária Alegria,
As mágoas e pesares se vão,
E todos somos Pierrots, Colombinas, Arlequins.

E todos somos amigos,
E todos somos palhaços.

Carnaval de iguais,
Assim parece.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Partida


E partiu, a esperança...

Assim, sem dó,
Despreocupada com o mundo que lhe rodeava;
Desinteressada;
Fria.

Foi-se por desistir de lutar;
Entregou-se às mágoas e aos erros,
Insistentemente presentes.

Insistência que também tenho com ela.

E, inconformado,
Não me toco,
Não me sinto.
Espero-a um pouco mais.

Talvez pra sempre.

E essa saudade da alegria sempre me vem,
Divide-me sempre;
Deita-se comigo,
E se converte em lamento.

Partiu, a esperança.
Partiu em dois, minha alma.
 
Free Blogger Templates